Permanência e metamorfose: o interesse permanente da obra de Shakespeare

Reconhecidamente, em seu conjunto, a obra shakespeariana resume a cosmovisão filosófica, histórica e cultural de seu tempo. Esta afirmação está longe de fazer justiça
ao cânone shakespeariano. Acima de qualquer outro, ele projeta, através dos séculos, elementos imperecíveis, que, mesmo na pós-modernidade, avessa a tais afirmações,
permitem ressaltar a universalidade da obra. Paradoxalmente, é essa universalidade que vem possibilitando a sucessivas gerações, cada uma a sua maneira, encontrar-se no texto shakespeariano: o reconhecimento do universal não impede, antes estimula, reinterpretações e metamorfoses.

Sem multiplicar desnecessariamente os exemplos, basta lembrar que, ainda no século 17, apenas meio século após a morte de Shakespeare, mas num contexto histórico totalmente diverso, John Dryden encontra em suas peças personagens compatíveis com a volta de Carlos II ao trono inglês. Fascinado pela sutil Cleópatra de Antony and Cleopatra, Dryden, a faz renascer em All for Love (1677) como uma requintada dama da Restauração. Por sua vez, o século 18 retoma incansavelmente a encenação daspeças. Com seu gosto pela trama simétrica e pelo “happy end”, permite-se alterar opungente desfecho de King Lear, poupando a vida da piedosa Cordélia para casá-la com Edgar, outro modelo de devoção filial. A plateia vitoriana prolonga essa relação de amor e ódio, que, ao mesmo tempo, preserva e transforma os textos. Encenando-os repetidamente, não os poupa de modificações: na fala de Julieta, recém-casada inexperiente, omite às alusões à iminente consumação sexual, ofensivas à sensibilidade
puritana da época.

No início do século 20, a crítica literária e a prática teatral assumiram às vezes a direção contrária. Longe de adaptar ou “corrigir” seu texto, entregaram-se a intermináveis investigações sobre o “autêntico” Shakespeare. Não se extinguiram os adeptos dessa corrente. Entretanto, chamam muito mais a atenção da plateia
contemporânea os textos de inspiração pós-colonial e cultural, voltados para questões atuais, de gênero, classe ou etnia: possibilitam recuperar, nos velhos textos, o frescor do novo.
Nesse sentido, a reciclagem literária evoca uma miríade de recriações, que, dialogando com eles, homenageiam ou contestam os textos shakespearianos. Contam-se aos
punhados não apenas reescritas literárias e dramáticas _ Lear de T. E. Bond´s (1971),Rosencrantz and Guildenstern are Dead de Tom Stoppard (1967)_ como também
incontáveis versões para as artes performáticas: teatro, cinema, T.V., vídeo, rádio, música, dança. Usando a classificação da crítica Julie Sanders, destacam-se dois tipos básicos de reescrita: adaptações e apropriações. As adaptações são escritas reconhecíveis. Observam certa fidelidade ao texto fonte, introduzindo pouco mais que
as transformações exigidas pelas convenções de outra mídia. As apropriações, pelo contrário, são transcriações radicais; usam o original como simples trampolim para o
tratamento de temas atuais, não raro descartando os diálogos originais.
Tanto as adaptações quanto as apropriações sofrem a influência do público receptor, evidenciando as transformações exigidas pela passagem do tempo ou mudança de local.
No século 20, Henrique V já foi reescrito de muitas formas, com vistas à Segunda Guerra Mundial, à guerra de Vietnam, à crise das Malvinas e, mais recentemente, às
Guerras do Golfo. A leitura de Shakespeare mostra-se assim inseparável de debates sobre questões contemporâneas, frequentemente desconstruindo significados de
autoridade e poder inscritos no texto canônico. Surge um número crescente de recriações interligadas, não raro em diferentes mídias. É o caso de Romeu e Julieta,
adaptada para o cinema, a TV, a ópera, a música sinfônica, o balé, a comédia musical e canções populares. Três outras peças têm sido insistentemente adaptadas: A
Tempestade, Othello e Hamlet. A Tempestade enseja reflexões sobre o projeto (neo) colonial, associadas ao antigo projeto imperial britânico ou ao papel dos Estados Unidos no cenário internacional. Além de adaptações como Blood Relations (Laços de Sangue), de David Malouf e This Island´s Mine (Esta Ilha é Minha) de Philip Osment e Une Tempête (Uma Tempestade) de Aimé Césaire, destaca-se a interessantíssima recriação brasileira de Augusto Boal, A Tempestade.
Em razão de sua ligação com o racismo e as tensões das sociedades multiculturais modernas, Othello tem também merecido recriações instigantes, exemplificadas por
Harlem Duet (1997) de Djanet Sears. De Hamlet, existem até releituras cômicas, como Humble Boy (2001) de Charlotte Jones, sem falar de encenações bizarras, como Elsinore de Robert Lepage. Nessa peça, o ator/diretor canadense representa todos os papéis, usando o texto original, fortemente podado e reorganizado, com espetaculares efeitos visuais.

Sem deixar de representar o clímax da arte renascentista, Shakespeare afirma-se, assim, como nosso contemporâneo _ observação pouco original, se lembrarmos a famosa frase de Ben Jonson, seu admirador e rival, na introdução ao Folio de 1623: “He was not of an age, but for all time”.

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