Alexa Huang – Depoimento – Shakespeare Association of America

Depoimento concedido à Liana Leão durante a conferência Shakespeare Association of America, Toronto, Canadá, 2013 – (tradução Victor Liebel)

1. Como você explicaria seu trabalho para quem não é acadêmico?

É um privilégio e uma responsabilidade única ensinar Shakespeare e globalização no centro de Washington, DC, a três quadras da Casa Branca. Tenho orgulho de ter seguido minha vocação para contar histórias e mostrar aos outros como escutar vozes silenciadas. Contar histórias nos faz humanos, porque nos ajuda a compreender a condição humana em diferentes contextos.

Mais especificamente, estudo crítica de performances de Shakespeare, estudos literários comparativos e asiáticos, e teorias e práticas de humanidades digitais (o estudo das interações entre mídia digital e da sociedade). Meu ensino e pesquisa são unificados pelo compromisso de compreender a diversidade das culturas modernas e pós-modernas.

2. Como você começou a estudar Shakespeare? O que “Shakespeare” significa para você?

Naufraguei em uma praia estrangeira quando nasci. Shakespeare me mostrou como incorporar e transformar uma praia estrangeira em meu habitat nativo.

Shakespeare é dramático. Shakespeare é filosófico. Shakespeare também é pessoal para mim. Shakespeare é terapêutico. Shakespeare não inventou o humano, mas as obras de “Shakespeare” falam sobre qualquer situação e me fornecem as metáforas e o vocabulário para lidar com a viagem estranha e gratificante que é a vida. A vida é crua, improvisada, e cheia de surpresas.

Nasci e cresci em Taiwan, falando taiwanês e mandarim. Sempre quis viajar, e Shakespeare, especialmente o Shakespeare global, era um bilhete para o resto do mundo.

Shakespeare entrou na minha vida quando eu estava estudando na Alemanha. Tive a sorte de receber uma bolsa de estudos para estudar no exterior como estudante de intercâmbio na Alemanha, onde descobri que o dramaturgo com mais apresentações no país não era Goethe, mas William Shakespeare, que estudei nas aulas de Inglês. Isso despertou minha curiosidade. Como descobriria mais tarde, Shakespeare foi uma figura importante que ajudou a estabelecer uma identidade cultural alemã unificada e fortalecer uma tradição literária em oposição ao classicismo francês. Logo aprendi que em todo o mundo Shakespeare foi um marco cultural durante séculos.

3. Você tem cerca de 90 publicações e já apresentou mais de 100 palestras e entrevistas em quatro continentes, mas apenas recentemente começou a colocar sua identidade pessoal com mais confiança em seu trabalho acadêmico e em suas palestras como “Global Shakespeares as Methodology”. Você poderia nos contar sobre sua jornada?

Durante toda a minha vida procurei um lugar para chamar de lar, razão pela qual me interessei em como as narrativas são transformadas quando se deslocam através de fronteiras de todos os tipos.

Como estudiosa nascida no exterior, sempre me senti como uma impostora, me sentia ansiosa e achava que não seria levada a sério. Achava que não pareceria legítima por causa da minha idade, etnia e gênero. Estava muito consciente de que era uma minoria. Tentei me distanciar. Mesmo que fosse apaixonada pelo que faço e pesquisar fosse o trabalho da minha vida, tentava ser emocionalmente e pessoalmente distante das investigações acadêmicas. Nem sequer queria falar sobre minha origem taiwanesa para meus amigos.

Eu aprendi a “falar o que sentimos, não o que deveríamos dizer” (aqui ela cita Rei Lear, o trecho “Speak what we feel not what we ought to say”) porque o pessoal é político, e o pessoal define o padrão crítico e a iniciativa crítica. Então aqui está a minha história.

Meus pais eram de um vilarejo agrícola no sul de Taiwan. Nas noites de verão da ilha subtropical, minha avó contava histórias de fada embaixo de um céu estrelado, histórias sobre sua vida durante o domínio colonial japonês, e as histórias das pedras, dos lagartos, e da aldeia. Eu olhava para o céu e perguntava o que estava lá fora, além do horizonte. É assim que eu desenvolvi um apetite insaciável por histórias: históricas, fantásticas, políticas e heróicas.

Apesar do status de Taiwan como uma sociedade de imigrantes e suas histórias de colonização portuguesa, espanhola, chinesa e japonesa, a ilha no final do século XX não era, ironicamente, uma sociedade diversificada, pelo menos não uma sociedade que abraçava a sua diversidade. Havia diversos papéis socialmente impostos que foram nitidamente divididos ao longo das linhas de idade, gênero, classe e etnia. E, além disso, eu vinha de uma família tradicional, que nunca questionou a ordem patriarcal de Confúcio.

Eu era uma garota “nerd” que adorava ler e criar histórias, que depois aprendi serem chamadas de narrativas. Na escola eu era uma sonhadora indesejável. Me diziam “garota, se você não se concentrar nos exames, não terá um futuro”. Eu me sentia sufocada. Não havia espaço para respirar. Nesse ambiente sufocante, as histórias me deram espaço para respirar. As histórias me deram esperança. As histórias me ofereceram uma saída.

Como estudante universitária na Universidade Tsinghua, me formei na praticamente impraticável área de literatura inglesa, porque sonhei com o mundo infinito além da pequena ilha onde cresci. Desenvolvi um apetite por viagens: através de histórias, através do tempo e através de fronteiras de todos os tipos.

Minha curiosidade me fez estudar a globalização cultural, que me levou a Estrasburgo, Munique, Oxford, e vários outros países. Quando visitei Londres como caloura, estavam reconstruindo o famoso Globe Theatre de Shakespeare perto de seu local original na margem sul do rio Tâmisa. Eu alegremente doei um tijolo para o projeto. Na mente de uma aluna de uma pequena nação que não havia sido reconhecida pelas Nações Unidas e pela maioria dos países até 1971, aquele tijolo era um material de ligação com o Ocidente que ia além de política internacional, a um espaço histórico fascinante, e a uma herança cultural intangível de um “admirável mundo novo”, como diria Miranda em “A Tempestade”.

Eu queria encontrar meu próprio admirável mundo novo. Estava apaixonada o suficiente para ser cega, ou tola o suficiente para ser apaixonada com a academia, que acabei decidindo estudar no exterior e seguir carreira nos EUA. Não tinha conexões familiares no país.

4. Obrigada Alexa por compartilhar sua jornada para esse admirável mundo novo. Você poderia falar sobre o seu tempo na pós-graduação?

As histórias de Shakespeare e as histórias que diferentes culturas contam sobre Shakespeare eventualmente me levaram para a Califórnia do século XXI. Eu pulei o mestrado e fui direto para o doutorado.

Como estudante de pós-graduação em Stanford, aprendi a questionar e conciliar ideias conflitantes. Aprendi a construir comunidades sustentáveis através da comunicação oral e escrita eficaz. Acima de tudo, aprendi a gerir as relações pessoais em um ambiente competitivo. A competição era forte entre os alunos, e os três exames de qualificação (um no final de cada ano) foram implacáveis. Meu grupo era composto por apenas quatro alunos. Apenas dois graduados.

Quando chegou a hora de escolher um tema para minha tese de doutorado, inicialmente queria um tema conservador, mais “seguro” e em um campo mais consolidado dos estudos modernos. Sou grata porque, em vez disso, descobri e participei da criação do Global Shakespeares como um novo campo de estudo. Devo muito à Professora Patricia Parker, cuja incansável busca pela perfeição me empurrou para escolher a estrada menos percorrida e seguir minha vocação para contar histórias.

5. E os projetos e livros nos quais está trabalhando?

O livro que está saindo em breve pela Palgrave é chamado “Shakespeare and the Ethics of Appropriation”, que co-editei com Elizabeth Rivlin. Acreditamos que a ética é um termo essencial, muitas vezes perdido em discussões sobre Shakespeare e apropriação. Nós interpretamos a ética, neste contexto, como uma obrigação, cuidado, ou dever por parte de um ator para outro ou outros, mesmo ou sobretudo quando os outros estão na forma de textos ou obras. Os ensaios abordam as implicações éticas, subprodutos e problemas de apropriação de Shakespeare. Numa época em que Shakespeare está se tornando cada vez mais globalizado e diversificado, é mais importante do que nunca perguntar como essa apropriação de “Shakespeare” constrói um valor ético em todas as linhas culturais e outras. Os ensaios reunidos abordam a ética a partir de uma variedade de perspectivas: alguns exploram como foram recebidas e interpretadas as questões éticas em peças de Shakespeare, alguns investigam os compromissos éticos de apropriações de Shakespeare, e alguns interrogam os princípios éticos que fundamentam os processos de adaptação e apropriação. Como um todo, o volume sugere que as apropriações são sempre em algum nível comparativas e que seu trabalho tem valor na criação de discussão e na compreensão de interpretações fortemente divergentes.

Estou trabalhando em duas monografias.”Shakespeare and Diaspora” introduz os leitores à diáspora, um novo aspecto do Shakespeare global no contexto de turnês. No livro, defendo que Shakespeares diaspóricos são apresentações distintas de Shakespeares nacionais, porque são planejados para comunidades heterogêneas e incorporam elementos de várias culturas, como evidenciado pelas obras indiano-britânicos, asiático-americanas, chinesas de Singapura, québécois (francófonas canadenses), e de artistas canadense-africanos e caribenhos.

Shakespeare and East Asia identifica três grandes temas que distinguem as interpretações das culturas locais e o Shakespeare no Japão, Coreia, China, Taiwan e Singapura atualmente, a partir de suas contrapartes em outros locais do mundo: eles estão levando a uma globalização mais equitativa em termos artísticos e servem como um fórum onde artistas e público podem discutir questões contemporâneas e, por meio de atividades de turismo internacionais, remodelar debates sobre as relações entre o Oriente e o Ocidente. Interpretações asiáticas de Shakespeare são importantes para os leitores ocidentais devido ao seu impacto sobre as culturas de apresentação americana e europeia, como exemplificado pelo reconhecimento mundial das obras de Ong Keng Sen, Akira Kurosawa e seus pares. A história de Shakespeare no leste asiático como um corpo de obras – ao contrário de histórias aleatórias sobre encontros entre culturas – nos permite entender melhor o processo de localização de ideias artísticas através da colaboração transnacional.

6. Você poderia compartilhar seus pensamentos sobre os estudos shakespearianos hoje?

“Estudos shakespearianos” tornou-se uma expressão genérica que designa vários campos que vão além da análise textual de um corpo de poemas, peças e sonetos canônicos. Os estudos shakespearianos no século XXI formam um guarda-chuva ou tenda que parece ser grande o suficiente para ajudar a transformar as ciências humanas, e uma grande quantidade de trabalho, incluindo humanidades digitais, saiu desse campo. Há muita vibração positiva e energia intelectual. O campo está cada vez mais inovador, embora tenha a bagagem de ser um dos mais canônicos.

7. Algum conselho para os estudantes de pós-graduação?

Aprendi algumas coisas, como estudante de pós-graduação e agora diretora de estudos de pós-graduação. Além de formação acadêmica, a lição mais importante da pós-graduação é a de habilidades gerenciais: gestão do tempo, gestão emocional e gestão do stress. Muita gente conhece um monte de coisas. Não é suficiente apenas “saber um monte de coisas” em seu campo.

Em primeiro lugar, é necessário encontrar uma voz própria. Nosso trabalho é criar um canto para nós mesmos na sala barulhenta que é a academia. A experiência da pós-graduação às vezes pode parecer assustadora, porque estamos constantemente sendo questionados e induzidos. Abaixe suas defesas. É útil deixar qualquer senso de autoria para trás. Não tenha medo de começar do zero. Se você dá tudo o que tem, o exterior acabará se tornando sua casa.

A segunda coisa que aprendi  foi exatamente isso: dar tudo de mim, desde o começo, me jogar com tudo. A água pode ser fria, mas ficar à beira da piscina só gera arrependimentos mais tarde. Durante meu segundo semestre na Universidade de Stanford, estava morrendo de medo quando fui designada como professora assistente para uma aula de Shakespeare ministrada por um renomado professor. Pensei que deveria recusar a oportunidade e esperar até que o meu inglês fosse impecável. Fico feliz por não ter esperado. Aprendi truques novos e úteis no trabalho.

A próxima coisa que aprendi foi olhar o medo nos olhos e deixar para trás velhos hábitos, o modo antigo de fazer as coisas, sair da zona de conforto. Essa é a única maneira de avançar. O medo e a imposição social têm infelizmente entorpecido muitas vidas e dissertações.

Por último, mas não menos importante, uma dissertação finalizada é uma grande dissertação. É um bilhete para o clube. Faça-a e escreva seu magnum opus depois de ter um emprego. Não deixe que nada te impeça de terminar. Temos pouco tempo, e não temos o luxo de viver o sonho de outra pessoa. Quando meu tempo acabar, quero ser capaz de dizer que tenho seguido uma vida plena, uma vida que é crua, apaixonada, e não roteirizada. Quais são os seus sonhos?

Biografia

Alexa Huang (http://alexahuang.org/Biography.shtml) é professora de Inglês, Teatro, Línguas e Literaturas do Leste Asiático e Relações Internacionais da George Washington University, em Washington DC, onde foi co-fundadora e co-dirige o Digital Humanities Institute. Também é diretora do Dean’s Scholars in Shakespeare, programa para estudantes de graduação, e diretora do programa de pós-graduação em Inglês. Como pesquisadora de literatura no MIT, foi co-fundadora e co-dirige o acervo digital de vídeos Global Shakespeares.

Seus livros incluem Chinese Shakespeares: Two Centuries of Cultural Exchange (2009; 2011); Weltliteratur und Welttheater: Ästhetischer Humanismus in der kulturellen Globalisierung (2012); Shakespeare and the Ethics of Appropriation (co-editora, no prelo); Shakespeare in Hollywood, Asia and Cyberspace (co-editora, 2009); e Class, Boundary and Social Discourse in the Renaissance (co-editora, 2007). Ela também é editora geral do The Shakespearean International Yearbook.

Foi nomeada Professora de Excelência em Estudos Globais de Shakespeare pelo Fulbright Program em Londres para 2014-2015 e Residente Buckhardt pelo American Council of Learned Societies Buckhardt Fellow na Folger Library para 2015-2016. Recebeu o Prêmio Scaglione MLA de Estudos Literários Comparativos, foi convidada recentemente para realizar uma apresentação no Congresso dos EUA sobre a globalização e a importância das ciências humanas no século XXI e lecionou no programa de pós-graduação de verão da Middlebury College Bread Loaf School of English no Lincoln College, em Oxford.

 

 

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